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A CREDIBILIDADE DO JORNALISMO Crónica de 22 de Maio de 2006
A credibilidade do jornalismo José Carlos Abrantes
Foram colocadas, a partir de uma experiência concreta, algumas questões de fundo do jornalismo actual. Devem agora ser debatidas. A mais importante será o poder das agências de comunicação.
Em 9 de Novembro de 2005, transmiti aos ex-candidatos às eleições autárquicas em Lisboa, Carmona Rodrigues, Manuel Maria Carrilho, Ruben de Carvalho, Maria José Nogueira Pinto e Francisco Louçã (deveria ter sido enviado a José Sá Fernandes, candidato do Bloco de Esquerda) o seguinte e-mail: “Junto envio a minha última crónica publicada no DN. Esta tratava das relações entre os políticos e os jornalistas mas de uma forma que um leitor considerou que teria dado uma "imagem um tanto "idílica"" destas relações. Dado que, recentemente, esteve envolvido(a) numa disputa para um cargo político, muito lhe agradecia um comentário breve sobre se, de facto, os políticos são ostracizados pela comunicação social, se a mensagem destes é deformada e se estes têm ou não possibilidades de reagir a eventuais excessos ou "atropelos" cometidos pelos jornalistas.” Citava depois um leitor : "Lamento ter de o dizer, mas penso que a classe jornalística foi a mais responsável pela degenerescência e generalizada degradação ocorrida, mais ainda que a classe política. Foi, a meu ver, a mais culpada por ser a mais poderosa e omnipresente. São, as duas, os maiores agentes e instigadores da crescente perversidade que domina o país.” Dos políticos inquiridos, apenas reagiram os do Bloco de Esquerda, por Diana Andringa, candidata na Amadora e o do PS, Manuel Maria Carrilho, embora este telefonicamente. A crítica do leitor visava um editorial de António José Teixeira. Na minha crónica, defendi haverem modos de defesa variados, ao alcance dos cidadãos, para estes reagirem a eventuais excessos dos jornalistas. Entre eles sublinhava que” uma queixa ao provedor pode ser mais interessante para vincar uma posição cívica do que a linha telefónica para os corredores do poder ou para as direcções dos jornais.” Mas nem sempre as coisas se passam assim. Se mais crónicas não escrevi sobre o que se passou nas eleições foi por as queixas ao provedor terem sido escassas, neste domínio. Manuel Maria Carrilho poderia ter aproveitado o facto de o DN ter provedor para questionar o jornal. Porque não o fez? Defende agora no seu livro que teve motivos de queixa do DN. Uma queixa no momento oportuno ao mediador adequado poderia ter resolvido alguns destes litígios. O provedor, por natureza, só pode ser eficaz, se os leitores lhe fizerem chegar as suas reflexões, dúvidas e protestos. E isto independentemente de quem sejam. Como provedor do DN, tive apenas duas queixas relacionadas com as autárquicas de 2005. Uma deu origem a uma crónica intitulada Por imagens pertinentes e era relativa a uma fotografia de um cartaz de Carmona Rodrigues escondido por árvores. Uma leitora considerava esta fotografia desadequada e sinal de enfeudamento do DN a um dos candidatos. Outra, em 24 de Outubro, Da intenção ao voto (2), veiculava mais uma “condenação” do jornal, pois, o DN tinha publicado, em primeira página, uma sondagem favorável a Manuel Maria Carrilho na antevéspera das eleições. Apesar disso, como mostra o email acima, não fiquei de braços cruzados, tentando obter reacções sobre o que os políticos concorrentes às autárquicas pensavam da cobertura dessas eleições. Percebi, neste como noutros casos, como é difícil soltar a palavra dos políticos em relação à comunicação social. Falam nos corredores, nos bastidores, entre amigos. Mas dizer publicamente o que pensam é mais raro. Manuel Maria Carrilho fê-lo agora. Sejam quais forem as discordâncias com o conteúdo de Sob o signo da verdade este acto deve ser sublinhado como importante. Será um exemplo a seguir. A menos que haja ainda, em Portugal, uma lei da rolha. Foram colocadas, a partir de uma experiência concreta, algumas questões de fundo do jornalismo actual. Devem agora ser debatidas. A mais importante será o poder das agências de comunicação. Eduardo Cintra Torres (cf crónica do Público de 21/05), não é o unico profissional à espera de que a Entidade Reguladora da Comunicação Social (ou ERC ) faça uma investigação aprofundada sobre as relações das agências com os jornais - e os jornalistas. O jornalismo, para ser credível, precisa de voltar a ganhar autonomia e credibilidade, sua matriz de nascença. Ou será que prefere ir, lentamente, cavando a sua própria sepultura? 1) http://www.josecarlosabrantes.net/detalhe.asp?id=96&idc=29 2) http://www.josecarlosabrantes.net/detalhe.asp?id=88&idc=29 BLOCO NOTAS
Mais investigação Também a investigação académica, nas universidades, nos centros de investigação e associações, poderiam intervir mais directamente nos problemas do jornalismo. O tema das agências de comunicação e outros que abalam os media deveriam ser objecto de estudos, reflexões, colóquios, emissão regular de opinião , em vez de estas instituições estarem, quase sempre, infantilmente alheadas nos rodriguinhos académicos.
Ainda o Congresso dos Provedores Carol Nunnelley, da Associated Press Managing Editors, falou sobre o projecto que dirige chamado “Mesas Redondas de Credibilidade”, já aplicado em 155 organizações jornalísticas americanas. A base da experiência consiste no seguinte: sob a coordenação de Nunnelley reúnem-se grupos de leitores, fontes e jornalistas - “todos os envolvidos com a notícia” - e passa-se a discutir o que os leitores esperam do jornal. Nessas “mesas redondas” o jornalista deve ouvir, mais do que falar. O que mais se observa nos jornais regionais, para os quais o projecto está direccionado, é um “desfasamento” entre a visão dos leitores e a dos jornalistas. Eis um exemplo. O Arizona Dayle Star recebia queixas constantes de ter uma visão parcial quanto ao porte de armas. Favoreceria os que eram contra o porte. Além do forte lobby a favor das armas nos Estados Unidos, a região em que o jornal fica é um lugar em que os habitantes gostam de desporto ao ar livre (no qual se inclui o tiro). Muitos leitores reclamavam que o jornal não dava importância a isso, demonstrando “desprezo pelo modo de vida da comunidade”. Criou-se então um grupo para avaliar as notícias dos últimos anos sobre o assunto. Não se encontraram distorções graves, mas havia muitos erros factuais a respeito de questões técnicas: sobre tipo, calibre de armas, etc. Isso afectava a credibilidade . A partir desta constatação, criou-se uma lista de fontes, incluindo especialistas para dar informações técnicas sobre o assunto. Segundo ela, há um consenso entre os estudiosos e jornalistas que se dedicam a pensar sobre os media no que diz respeito a como recuperar a credibilidade e aumentar a circulação dos jornais: é preciso ouvir os leitores. Será o que se tem feito em Portugal? Texto adaptado de um relatório de Plínio Bortolotti, provedor do jornal brasileiro O Povo.
Escreva Escreva sobre a informação do DN para provedor2006@dn.pt: “A principal missão do provedor dos leitores consiste em atender as reclamações, dúvidas e sugestões dos leitores e em proceder à análise regular do jornal, formulando críticas e recomendações. O provedor exercerá, simultaneamente, de uma forma genérica, a crítica do funcionamento e do discurso dos media.” Do Estatuto do Provedor dos Leitores do DN
Para outros assuntos : dnot@dn.pt
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