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ECRÃS EM MUDANÇA Publicado em 2006


O livro “Ecrãs em mudança” reúne contribuições sobre as relações da televisão e da internet com os seus públicos, sobretudo os jovens. Dá também relevo ao provedor de televisão recentemente instituído pela RTP. A interacção entre os públicos e tais tecnologias faz-se, sobretudo, a partir dos ecrãs, face aos quais nos entregamos, quotidianamente, mais ou menos tempo, na nossa actividade profissional e de lazer. Tais ecrãs estão em mudança pois, quer uns quer outros, sofrem transformações constantes nos conteúdos, nos dispositivos, nos públicos, nas tecnologias que os fazem estar presentes nas sociedades modernas." da introdução do livro Ecrãs em Mudança.

 
O livro faz parte da  colecção do CIMJ, numa edição de Livros Horizonte. A edição foi subsidiada pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Abrantes, J.C. (Org.), Ecrãs em Mudança, Lisboa, Livros Horizonte/CIMJ, 2006.


INTRODUÇÃO
José Carlos Abrantes

O livro “Ecrãs em mudança” reúne contribuições sobre as relações da televisão e da internet com os seus públicos, sobretudo os jovens. A interacção entre os públicos e tais tecnologias faz-se, sobretudo, a partir dos ecrãs, face aos quais nos entregamos, quotidianamente, mais ou menos tempo, na nossa actividade profissional e de lazer. Tais ecrãs estão em mudança pois, quer uns quer outros, sofrem transformações constantes nos conteúdos, nos dispositivos, nos públicos, nas tecnologias que os fazem estar presentes nas sociedades modernas.

O primeiro capítulo centra-se nos jovens como público de televisão e da internet. Uma investigação internacional intitulada “Os Jovens e  a Internet” agrupou investigadores do Canadá (Québec),  França, Bélgica, Suíça, Espanha, Itália e Portugal. A investigação centrou-se em três questões centrais:
• Qual a representação que os jovens têm da Internet?
• Qual a utilização efectiva que os jovens fazem da Internet?
• Como é que se concretiza  a apropriação da Internet, pelos jovens?
Jacques Piètte, o coordenador da investigação internacional, analisa no seu texto (página tal a tal) os resultados da pesquisa efectuada no Québec, confirmadas, em geral, pela pesquisa europeia.  Para os jovens a internet não é nem um inferno nem um paraíso e não muda completamente o mundo. É também, e acima de tudo, um instrumento de diversão. Na utilização concreta  verifica-se que, “apesar da imensidão da Web, a tendência é para tecer pequenas teias pessoais.” Jaques Piètte termina o seu texto com algumas interessantes reflexões sobre o impacte da internet no estudo dos jovens e dos media.
O texto seguinte é sobre a  investigação realizada em Portugal e é assinado pelo autor desta introdução (paginas tal a tal) . Um dos aspectos sublinhados é o papel paradoxal da escola: “Paradoxal porquê? Porque  o primeiro lugar de contacto para os jovens interrogados é a escola (41%) sendo o lar apenas responsável de 20% dos primeiros contactos. Pode dizer-se mesmo que a escola representa um local de forte democratização para a internet em Portugal juntos dos jovens inquiridos pois, no momento da investigação, 83% dos inquiridos já havia tido algum contacto com a internet, na escola que frequentam. Ou seja, a escola em Portugal, tem sido um lugar de desenvolvimento prioritário para colocar os jovens em relação com a internet, o que não acontece em todos os países ou regiões (....).
Paradoxalmente,  a escola tem, em geral, uma abordagem fraca, sem profundidade, da internet.”
Um terceiro texto, assinado por Dominique Pasquier (pagina tal a tal), dá conta de uma investigação que mostra como a recepção de uma série de televisão, Hélène et les garçons, leva os jovens que a seguem a torná-la um ponto de partida para um conjunto de actividades colectivas muito relevantes: “ a recepção da televisão não acontece diante de um televisor mas na antecipação e produção de colectivos. Para se reflectir sobe o público televisivo, a reflexão deve incidir no social.”

O segundo capítulo centra-se na discussão do papel da televisão nas sociedades de hoje, aliado à problematização da educação para os media . A necessidade de programas de literacia mediática já é salientada no capítulo anterior, mas é analisada mais em detalhe no texto de Jacques Gonnet (pagina tal a tal). Os públicos de televisão e da Internet precisam de instrumentos de auxílio para se movimentarem com mais desenvoltura na teia televisiva e na teia cibernética. Jacques Gonnet faz uma síntese de tês diferentes tendências que a educação para os media tem perfilhado: as abordagens “vacinatória”, do pensamento crítico e da descodificação dos media. E, depois de uma interessante incursão pelos modos de aprender, o autor deixa no ar algumas recomendações para operacionalizar a educação para os media: “importa colocar os jovens numa situação de domínio dos media, de produção dos media, para conseguirem desmontar e descodificar simultaneamente as mensagens que recebem, mas para que possam, ao mesmo tempo, construir o seu pensamento, o seu imaginário, para se sentirem incentivados a apresentar a visão que têm do mundo. A educação assume deste modo toda a sua dimensão como projecto, e revela-se, neste caso concreto, uma contribuição fundamental para as práticas democráticas.”
Eduardo Marçal Grilo traça no seu texto (paggna tal a tal) um “panorama desolador” da televisão em Portugal no ano em que escreve, ou seja, 2001. “Quando se pede à escola que “faça tudo” porque muitas famílias já se demitiram de transmitir valores, temos de ter a noção de que, por força da competição desenfreada que tem tido repercussões no nível das programações, a televisão está a prestar um mau serviço à causa da educação. E isto porque quando as crianças chegam à escola já “levam” com elas uns milhares de horas em frente do televisor continuando a consumir televisão durante toda a sua escolaridade, em especial nas horas nobres que são aquelas em que o nível é mais baixo. Não tenho dúvidas em afirmar que a televisão, tal como hoje vai ao encontro da maioria da população é um factor de deseducação e de aviltamento de alguns valores, valores estes que considero como pilares em que deve assentar a formação das crianças e dos adolescentes.”
Serge Tisseron dá-nos conta de uma investigação por si dirigida, em França (apgina tal a tal). Tratou-se de verificar os impactes das imagens violentas em jovens de 11-13 anos. A abordagem que este utilizou permitiu distinguir entre a gestão individual dessas imagens  e a sua gestão colectiva. Na gestão individual das imagens assumem extrema importância as palavras, a criação de cenários interiores e as manifestações não verbais, como as reacções corporais. Tisseron afirma que a educação para os media é uma estratégia necessária no contrôle das imagens violentas e precisa: ”um dos meios principais usados pelas crianças para elaborar o stress das imagens violentas consiste na compreensão do modo como estas foram construídas,  nomeadamente dos efeitos especiais que permitiram a sua fabricação. A compreensão destes efeitos funciona como uma forma de distanciação, que permite à criança distinguir melhor entre as imagens que lhe ocupam o espírito e as que vê no écrã. Esta compreensão é igualmente necessária para a relação que a criança estabelece com as imagens de ficção e as imagens da actualidade. A televisão deveria por isso incentivar a produção de programas de “making of”. “


O terceiro capítulo é uma reflexão de Geneviève Guicheney, que foi provedora de programas de France Télévision. Este texto tem forte pertinência, neste momento. De facto, o provedor de televisão foi recentemente instituído no serviço público. Esse facto levou-nos a, em anexo, publicar o decreto lei que cria, pela primeira vez em Portugal, uma mediação entre os espectadores e os responsáveis da informação e da programação televisivas. O  modelo adoptado em Portugal é diferente do modelo francês. Em França há provedores de informação e provedores de programas, mas distintos. Em Portugal, ao provedor caberá mediar não apenas na informação como também nos problemas levantados pela programação. A provedora francesa considera que “à legitimidade das escolhas editoriais responde, através da provedoria, a legitimidade dos telespectadores. A provedoria significa a abertura de um espaço de crise no bom sentido. Não se trata propriamente de reconciliar pontos de vista, de fazer com que um se renda às razões do outro ou o inverso. Trata-se de cada um reconhecer o outro e compreender o que se passou. O que pressupõe aceitar explicar-se. A provedora dos programas nunca começa por responder quanto ao fundo. Dá conta da recepção da mensagem ou da correspondência e deixa que a primeira resposta fique a cargo dos responsáveis do programa em causa. Trata-se, de uma parte, de preservar a responsabilidade editorial, e por outro, de evitar que os provedores possam confundir-se com o cavaleiro branco justiceiro, que clama o bem contra o mal. O essencial é o espaço de troca de palavras e argumentos que a mediação do provedor possibilita.

Se a resposta dada não satisfaz os correspondentes, estes podem apelar ao provedor. Este modo de funcionamento é válido para os programas. No caso da informação a situação é diferente. O provedor dispõe de um espaço semanal para o qual convida telespectadores, eventualmente peritos, e os jornalistas em foco no caso concreto. Até agora, não nos foi possível encontrar uma solução satisfatória que permitisse trazer ao estúdio a mediação dos programas entre autores e telespectadores.”

 Ainda duas observações finais. O livro foi enriquecido com uma bibliografia sobre imagem e outra sobre a internet. Uma segunda nota é um agradecimento, ao serviço de educação da Fundação Calouste Gulbenkian, na pessoa do seu director, Manuel Carmelo Rosa. O apoio financeiro para a edição desta obra (e do próximo volume Televisão: Das audiências aos públicos a editar nesta coleccção )  foi decisivo para que a reflexão de um colóquio da Arrábida, onde estiveram, entre outros,  Tod Gittlin, John Fiske, Daniel Dayan, Dominique Mehl, Jean Pierre Esquenazi, Jostein Gripsrud, Dominique Pasquier, Sabine Chalvon, Serge Tisseron, Eduardo Cintra Torres, Eduardo Marçal Grilo,  Eliseo Veron. Algumas das contribuições destes autores estão neste volume, outras sairão no próximo, acima anunciado. O Paoio da Fundação Gulbenkian permite que agora tais contributos possam chegar a todos.

Lisboa, Março de 2006
José Carlos Abrantes

© José Carlos Abrantes